O Círculo Escarlate (tradução)

O Círculo Escarlate (0)

Junji Itou é um autor de mangá que eu adoro. O cara inventa uma história mais bizarra que a outra, te perturba com coisas a princípio ridículas e ainda sobra talento pra ilustrar tudo isso.

Se tu é chegado num terror asiático (ou apenas terror em geral) e se diverte com histórias sobre zé-ninguéns conhecendo os incompreensíveis perigos do sobrenatural por puro azar, eu recomendo esse cara.

Eu traduzi uma história dele. Se chama O Círculo Escarlate, e embora seja o capítulo final de uma publicação de seis partes, ela funciona sozinha. É sobre uma menina que descobre um porão secreto sob a casa de seus familiares, e numa de suas paredes, uma curiosa marca vermelha circular. Quer ler? É só clicar nesse link. Boa leitura!

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Exercício: Silent Hill 2 (Parte 2)

Cabeça de pirâmide

 

O sangue de James gelou no segundo em que passou pela porta do apartamento. Haviam coisas se mexendo no canto da cozinha. Mais monstros. Ele correu para o outro lado e se esgueirou para dentro de um armário, fazendo o mínimo de ruído que podia. Ali, sacou a arma e a empunhou com a mão trêmula, porém firme, lutando para silenciar sua respiração.

Pelas frestas na madeira, viu as coisas se contorcendo. Duas, que pareciam apenas um amontoado de pernas, dobravam os joelhos em espasmos, uma sobre a outra, respingando no chão o óleo avermelhado que cobria sua pele. Seu odor de fritura queimada preenchia o ar entre as paredes.

A última, no entanto, era a que mais o perturbava. Tinha um corpo humano e vestia luvas e um avental com manchas escuras, mas sua cabeça estava oculta por um imenso aparato metálico. O enferrujado objeto se assemelhava, em seus ângulos e retas, a uma pirâmide que foi distorcida até formar uma espécie de bico comprido. Nenhuma pessoa conseguiria carregar aquilo, muito menos sobre os ombros. De seu interior, vinham rangidos que arrepiavam os pêlos da nuca de James, enquanto a criatura sacudia e jogava as outras duas contra a parede. Uma atingiu o concreto com um baque surdo e caiu imóvel no chão. A outra, o monstro arrastou até o chão da sala, onde largou para dar um último de seus rugidos.

Ele virou a cabeça para os lados até que a apontou fixamente para o armário. Sabia que James estava ali. Grunhiu por baixo do metal, balançando as mãos no ar e deu um passo à frente.

Prontamente, James apontou a arma e atirou. Fechou os olhos com força, descarregou o pente. As balas abriram buracos na porta do armário e penetraram na carne cinzenta e pegajosa do monstro por baixo de seu avental. Ele se curvou, cambaleou e, quando seus ruídos não podiam mais ser ouvidos, James abriu os olhos. A coisa não estava mais ali.

 

Eddie

 

James ouviu gemidos vindo do banheiro. Não grunhidos monstruosos, e sim a voz de outro ser humano. A porta estava aberta, e ele se aproximou com cuidado. Havia um rapaz de boné abraçado no vaso sanitário, ajoelhado, sem fôlego de tanto vomitar. Parando para respirar, cuspiu algumas vezes e viu James atrás dele. Então, vomitou mais um pouco.

— Não fui eu! Eu juro! — ele urrou.

— Como assim? — perguntou James.

— Já estava assim quando eu cheguei.

Embora não houvesse arma à vista por perto, James quis perguntar. — Quem é aquela pessoa morta na cozinha? Você não está com aquela coisa com a pirâmide na cabeça, está?

— O quê? Como assim “pirâmide”? Não vi nada disso, eu juro — ele cuspiu — mas vi alguns monstros esquisitos. Fiquei morrendo de medo e corri até aqui.

— Bom, esse lugar também não parece muito seguro. Me chamo James.

— Eddie. Prazer.

James voltou os olhos para a sala atrás dele. — O que será que aconteceu aqui?

— Já disse que não sei. Nem sou dessa cidade. É que… é que…

— Algo te trouxe pra cá também, não é?

— É. Dá pra dizer que sim — Eddie disse, cuspindo no vaso.

— De qualquer forma, é melhor sair logo daqui.

— Tem razão. Mas e você, como fica?

— Eu vou embora quando terminar o que vim fazer. E tome cuidado, Eddie.

— Você também, James.

James deixou Eddie no banheiro. O estômago do rapaz já estava se acalmando, e agora sua respiração já começava a voltar ao normal. Era mais fácil ouvir o zumbido das moscas na cozinha. James passou por ali depressa, evitando olhar para as duas pernas ensanguentadas que saíam da geladeira.

Exercício: Silent Hill 2

Silent Hill 2 é um jogo da hora que me marcou muito e até hoje, quase dez anos depois de ter jogado, ainda inspira minha criatividade. Por isso, escolhi ele como base pra fazer uns exercícios de escrita. Peguei duas cenas introdutórias do jogo e “traduzi” pra uma linguagem literária, contando a história do meu jeito. O resultado tá aí.

 

Carta

 

Assim como toda a região, o banheiro parecia abandonado há anos. Tudo em seu interior estava enferrujado, quebrado ou manchado. As pálidas paredes traziam pichações borradas e cartazes desbotados do show de uma stripper, e o ar era azedo. O espelho era a coisa mais conservada. Estava um pouco turvo e escurecido, mas ainda refletia o que se punha em sua frente. Quando James se aproximou dele, viu seu rosto. Algo real. Algo que ele não esperava.

Mary havia morrido três anos atrás. Não foi de surpresa. Ele a viu ficar cada dia mais fraca. Viu as marcas vermelhas abrindo caminho em seu rosto, e derrubando as mechas de seu cabelo. Viu a felicidade dela se entregar naquela cama de hospital. O pesadelo durou três anos, e no final, ele ficou ao lado dela.

Apesar disso, no bolso de sua jaqueta, ele trazia uma carta que recebera fazia alguns dias.

“Em meus sonhos inquietos, vejo aquela cidade. Silent Hill. Você prometeu me levar de volta pra lá algum dia, mas nunca fez isso. Bom, estou lá agora, sozinha… em nosso lugar especial… esperando por você…”

O nome no envelope era o de Mary. Tudo que a carta dizia era verdade. Dificilmente seria uma piada de mau gosto. Porém, ela estava morta. Ver sentido nisso era loucura, e ir até a cidade para procurá-la era ainda pior. Logo, quando James olhou em seus próprios olhos pelo espelho, admitiu que não sabia onde estava com a cabeça.

 

A garota no cemitério

 

A estreita trilha dava num cemitério. Através da densa neblina, James viu um vulto se mexer entre as lápides, uma pessoa que talvez soubesse o caminho para a cidade. Andou até ela e, no instante em que abriu a boca para perguntar, ela levou um susto e gritou. Encarou James, com os olhos arregalados, e pôs a mão no peito.

— Eu… me desculpa, eu estava só… — ela gaguejou. Era uma garota jovem, de cabelos escuros e pele clara. Seu olhar era seco e cansado.

— Tá tudo bem — disse James. — Eu não queria te assustar. É que estou meio perdido.

Ela franziu o cenho — Perdido?

— Sim. Quero chegar em Silent Hill. É por aqui? — James apontou para a saída do cemitério, do outro lado.

— Por ali mesmo. Não dá pra ver com a neblina, mas é o único caminho — respondeu a garota. — Não tem erro.

— Obrigado.

— Só que… — ela hesitou — é melhor não ir. — Ela desviou o olhar e se encolheu. Sua voz era trêmula. — Essa… essa cidade… tem algo estranho nela. Não sei explicar, mas…

— É perigosa? — perguntou James, confuso.

— Talvez… Nem é a névoa, é algo… algo…

— Saquei. Vou tomar cuidado.

— Não estou mentindo! É sério! — ela protestou.

— Eu confio em você. É que não me importo. Vou pra lá de qualquer jeito.

— Por quê?

— Estou procurando uma pessoa.

— Quem?

— Alguém muito importante pra mim — disse James. — Eu faria de tudo pra vê-la de novo.

— Eu também — disse a garota — Estou atrás da minha mamãe. Quer dizer, minha mãe. Faz tempo que não vejo ela. Eu achei que meu pai e meu irmão estariam aqui, mas também não vi eles. Enfim, desculpa se estou incomodando — ela disse, mexendo a cabeça.

— Não está. E espero que você os encontre. Boa sorte.

— Pra você também.

James seguiu em frente. Parou na saída, perto de uma estátua de um anjo, e olhou por cima do ombro. A garota, novamente coberta pela neblina, estava agachada. Movia a cabeça de um lado para o outro, analisando as lápides, buscando algo que ele preferia não saber o que era. James empurrou o velho portão e começou a andar, torcendo para que tudo acabasse rápido.

PRIMEIROS PASSOS DO MAJOR FONSECA NA NECROMANCIA ALQUÍMICA

O comandante saiu do carro, deu a volta, e pôs nos ombros o saco preto que ocupava o banco do passageiro. Chovia muito. Quando entrou em casa, estava encharcado. Nem deu oi para o cachorro, passou reto. Deixou um longo rastro de barro da entrada até o sótão.

Ao chegar lá, descarregou o peso sobre uma velha mesa de carpintaria. Abriu as amarras do saco para encarar o que restava do Capitão Bragança. Havia um dia e meio que ele se revirava, delirante, após ter sido picado por um inseto no meio do mato. Fonseca, seu velho amigo, não saiu do seu lado. Ficou na enfermaria, conversando com ele quando ele estava acordado, e estudando anatomia quando ele dormia. O sofrimento foi curto. Cinco horas atrás, ele não mais respirava, nem batia-lhe o coração.

— Hora da morte: duas e cinquenta e quatro — disse o legista.

— Ele pediu para ser enterrado na velha casa onde morava — disse Fonseca.

— E onde fica isso? — perguntou o legista.

— Em Santa Quitéria. É perto de Lagoão. Eu levo. Faço questão. Sou amigo da família.

O legista assentiu lentamente, cansado, e começou a preencher a longa ficha na penumbra.

O rosto de Bragança já estava pálido então, mas agora não tinha cor nenhuma. Seu corpo lutava para virar cinzas e desaparecer da luz do sol para sempre, no entanto, Fonseca não daria o braço a torcer.

— Ricardo — ele sussurrou para o corpo — eu sei que você acharia absurdo o que estou prestes a fazer. Você sempre achou, e sempre desdenhou do que eu dizia. Mesmo assim, sempre me deu ouvidos. Queria que você estivesse aqui comigo agora para ver como estou certo, mas não me importo. É só questão de tempo. Tenho certeza de o trarei de volta. E espero que eu tenha a virtude de resgatar também suas lembranças, pois, quando você me olhar nos olhos de novo, quero ouvi-lo me chamar de amigo.

Assim, ele acendeu as velas. Fez tudo conforme o livro: o misto de ervas, as orações, a sangria. Levou três horas e no final, estava exausto. Só bastava um passo para tudo terminar. Posicionou os eletrodos na testa de seu amigo, respirou fundo e abaixou a alavanca.

O corpo sacudiu. A cabeça revirou de leve, e as mãos se ergueram, com os dedos se contorcendo. Fonseca ouviu um gemido. Porém, nada mais. Em segundos, o corpo estava tão imóvel quanto antes, e não respondia mais aos eletrochoques.

Fonseca socou a mesa. Ele não conseguiu. Chegou extremamente perto, mas, no final, o morto continuava morto.

Aquela batalha ele perdeu. Apesar disso, devia haver ajustes a serem feitos. Uma dosagem a temperar, uma ferramenta a calibrar, algo mínimo que atravancava seu caminho. Só não era hora disso. Ele estava esgotado. Estirou-se nas tábuas tortas do piso, suado e ofegante. Como se fossem um confortável colchão, dormiu profundamente.

Kairo

 

Quando estou adormecendo, uma miscelânea de sons e imagens me vem à cabeça: cenas fantasiosas, frases sem nexo, esquisitices repetitivas que me preparam para o ritmo do sono iminente. Algo como uma auto-hipnose involuntária. É meu cérebro balançando um relógio na minha frente, dizendo que vai contar até três, e então eu dormirei. Essa transição entre vigília e sono se chama hipnagogia, e só estou falando isso porque fica mais fácil explicar por que gosto de Kairo.

Kairo é um jogo indie de 2012, que consiste em explorar a arquitetura minimalista de um mundo surreal e resolver os quebra-cabeças que se encontram no caminho. Nem o protagonista, nem seu universo, possuem uma história ou propósito claro, sequer no final, e essa sensação de vazio cai bem em seu cenário onírico. O jogo normalmente acerta nas medidas de sua proposta. Há variedade tanto na exploração quanto nos quebra-cabeças, e os dois se intercalam e se trançam num ritmo bastante interessante.

Apesar disso, houveram partes que me desanimaram. Os quebra-cabeças, para ser mais exato. Não que eles sejam inerentemente ruins. A maneira como se apresentam é que são. Suas regras são às vezes tão diferentes umas das outras que é difícil entender o que ele quer de você. Teve ocasiões que eu não descobri o que eu precisava fazer nem mesmo depois de concluir o quebra-cabeça. E isso não é por serem difíceis, até porque a maioria é bem fácil. O problema é que são mal-pensados como um todo. Isso ocasionou uns bons 90 minutos de eu xingando todas as gerações dos desenvolvedores do jogo.

A ambientação é outra coisa. De uma maneira curiosa, ela é boa, pois é tão vaga que se decepcionar com ela é impossível. É um borrão sem forma, no qual você enxerga o que quiser, não por ser um desenho incompleto, mas por ser instigante e misterioso. Vez ou outra você vai dar de cara com algo que sugere algum contexto, como fotos do planeta Terra em monitores, ou a gravação de uma emissora de números específica (que, aliás, foi coincidentemente utilizada no final da música Even Less do Porcupine Tree). Porém, no fim, são coisas que não fazem sentido.

E eu gosto disso. Kairo é falho e não é pra todo mundo, mas foi uma bela experiência. Transitar através de seus cenários abstratos, resolvendo quebra-cabeças e ouvindo uma trilha ambiente suave foi muito melhor do que eu pensei. Há tantos jogos com propostas parecidas, que falham por cafonice e prepotência, que eu não esperava nada desse. Talvez foi por isso que gostei tanto. Por algumas horas, tudo o que você faz é se deparar com coisas que provavelmente nem tem um grande significado por trás, mas quem disse que precisa? Cruzar pontes suspensas no vácuo ou descer por escadarias gigantes sob um céu amarelado é divertido por si só, assim como olhar para o horizonte ao lado quando você está viajando – ou mergulhar na psicodelia que sua cabeça vira antes de dormir.

Kairo foi para mim um transe que poucas coisas provocam, e por isso já o admiro. De um modo estranhamente positivo, foi como estar caindo lentamente no sono, apenas observando as formas e cores passando à minha volta, prestes a entrar em um sonho (embora alguns quebra-cabeças sejam mais próximos de um pesadelo).