PRIMEIROS PASSOS DO MAJOR FONSECA NA NECROMANCIA ALQUÍMICA

O comandante saiu do carro, deu a volta, e pôs nos ombros o saco preto que ocupava o banco do passageiro. Chovia muito. Quando entrou em casa, estava encharcado. Nem deu oi para o cachorro, passou reto. Deixou um longo rastro de barro da entrada até o sótão.

Ao chegar lá, descarregou o peso sobre uma velha mesa de carpintaria. Abriu as amarras do saco para encarar o que restava do Capitão Bragança. Havia um dia e meio que ele se revirava, delirante, após ter sido picado por um inseto no meio do mato. Fonseca, seu velho amigo, não saiu do seu lado. Ficou na enfermaria, conversando com ele quando ele estava acordado, e estudando anatomia quando ele dormia. O sofrimento foi curto. Cinco horas atrás, ele não mais respirava, nem batia-lhe o coração.

— Hora da morte: duas e cinquenta e quatro — disse o legista.

— Ele pediu para ser enterrado na velha casa onde morava — disse Fonseca.

— E onde fica isso? — perguntou o legista.

— Em Santa Quitéria. É perto de Lagoão. Eu levo. Faço questão. Sou amigo da família.

O legista assentiu lentamente, cansado, e começou a preencher a longa ficha na penumbra.

O rosto de Bragança já estava pálido então, mas agora não tinha cor nenhuma. Seu corpo lutava para virar cinzas e desaparecer da luz do sol para sempre, no entanto, Fonseca não daria o braço a torcer.

— Ricardo — ele sussurrou para o corpo — eu sei que você acharia absurdo o que estou prestes a fazer. Você sempre achou, e sempre desdenhou do que eu dizia. Mesmo assim, sempre me deu ouvidos. Queria que você estivesse aqui comigo agora para ver como estou certo, mas não me importo. É só questão de tempo. Tenho certeza de o trarei de volta. E espero que eu tenha a virtude de resgatar também suas lembranças, pois, quando você me olhar nos olhos de novo, quero ouvi-lo me chamar de amigo.

Assim, ele acendeu as velas. Fez tudo conforme o livro: o misto de ervas, as orações, a sangria. Levou três horas e no final, estava exausto. Só bastava um passo para tudo terminar. Posicionou os eletrodos na testa de seu amigo, respirou fundo e abaixou a alavanca.

O corpo sacudiu. A cabeça revirou de leve, e as mãos se ergueram, com os dedos se contorcendo. Fonseca ouviu um gemido. Porém, nada mais. Em segundos, o corpo estava tão imóvel quanto antes, e não respondia mais aos eletrochoques.

Fonseca socou a mesa. Ele não conseguiu. Chegou extremamente perto, mas, no final, o morto continuava morto.

Aquela batalha ele perdeu. Apesar disso, devia haver ajustes a serem feitos. Uma dosagem a temperar, uma ferramenta a calibrar, algo mínimo que atravancava seu caminho. Só não era hora disso. Ele estava esgotado. Estirou-se nas tábuas tortas do piso, suado e ofegante. Como se fossem um confortável colchão, dormiu profundamente.

Kairo

 

Quando estou adormecendo, uma miscelânea de sons e imagens me vem à cabeça: cenas fantasiosas, frases sem nexo, esquisitices repetitivas que me preparam para o ritmo do sono iminente. Algo como uma auto-hipnose involuntária. É meu cérebro balançando um relógio na minha frente, dizendo que vai contar até três, e então eu dormirei. Essa transição entre vigília e sono se chama hipnagogia, e só estou falando isso porque fica mais fácil explicar por que gosto de Kairo.

Kairo é um jogo indie de 2012, que consiste em explorar a arquitetura minimalista de um mundo surreal e resolver os quebra-cabeças que se encontram no caminho. Nem o protagonista, nem seu universo, possuem uma história ou propósito claro, sequer no final, e essa sensação de vazio cai bem em seu cenário onírico. O jogo normalmente acerta nas medidas de sua proposta. Há variedade tanto na exploração quanto nos quebra-cabeças, e os dois se intercalam e se trançam num ritmo bastante interessante.

Apesar disso, houveram partes que me desanimaram. Os quebra-cabeças, para ser mais exato. Não que eles sejam inerentemente ruins. A maneira como se apresentam é que são. Suas regras são às vezes tão diferentes umas das outras que é difícil entender o que ele quer de você. Teve ocasiões que eu não descobri o que eu precisava fazer nem mesmo depois de concluir o quebra-cabeça. E isso não é por serem difíceis, até porque a maioria é bem fácil. O problema é que são mal-pensados como um todo. Isso ocasionou uns bons 90 minutos de eu xingando todas as gerações dos desenvolvedores do jogo.

A ambientação é outra coisa. De uma maneira curiosa, ela é boa, pois é tão vaga que se decepcionar com ela é impossível. É um borrão sem forma, no qual você enxerga o que quiser, não por ser um desenho incompleto, mas por ser instigante e misterioso. Vez ou outra você vai dar de cara com algo que sugere algum contexto, como fotos do planeta Terra em monitores, ou a gravação de uma emissora de números específica (que, aliás, foi coincidentemente utilizada no final da música Even Less do Porcupine Tree). Porém, no fim, são coisas que não fazem sentido.

E eu gosto disso. Kairo é falho e não é pra todo mundo, mas foi uma bela experiência. Transitar através de seus cenários abstratos, resolvendo quebra-cabeças e ouvindo uma trilha ambiente suave foi muito melhor do que eu pensei. Há tantos jogos com propostas parecidas, que falham por cafonice e prepotência, que eu não esperava nada desse. Talvez foi por isso que gostei tanto. Por algumas horas, tudo o que você faz é se deparar com coisas que provavelmente nem tem um grande significado por trás, mas quem disse que precisa? Cruzar pontes suspensas no vácuo ou descer por escadarias gigantes sob um céu amarelado é divertido por si só, assim como olhar para o horizonte ao lado quando você está viajando – ou mergulhar na psicodelia que sua cabeça vira antes de dormir.

Kairo foi para mim um transe que poucas coisas provocam, e por isso já o admiro. De um modo estranhamente positivo, foi como estar caindo lentamente no sono, apenas observando as formas e cores passando à minha volta, prestes a entrar em um sonho (embora alguns quebra-cabeças sejam mais próximos de um pesadelo).

Intuição

Liam sentia que os blocos intermináveis de equações riscando a tela eram seus próprios pensamentos. O cursor parou de vomitar os códigos e ficou piscando em alerta. Tinha terminado. O estômago do rapaz estava vazio, e sua bexiga, cheia, embora ele pudesse jurar que passaram apenas cinco segundos. Estalou o pescoço profundamente ao procurar o colega pelo quarto.

“Estou aqui”, respondeu Americo. Tinha tirado os tênis para deitar na cama do amigo e esperá-lo com algum conforto. Tinha peso nos olhos e na voz. Deixando o celular de lado, observou Liam por um momento. “E então, garoto? Descobriu a resposta?”

Os gritos do sol se pondo através das brechas na persiana assustaram Liam. Nunca demorou tanto. “Descobri sim”, respondeu balançando a cabeça. Seus dedos acariciavam os cantos da testa. “É fevereiro.”

Deixando escapar um murmúrio de surpresa, Americo alongou os braços para o alto. “Que coisa engraçada.”

“Engraçado por quê?”

“Sei lá, só engraçado mesmo. Não achei que fosse dar isso. Você achou?”

Liam deu de ombros. “Eu nem tinha pensado nisso.”

Lentamente, Americo virou-se para a parede como fazia ao tentar dormir. “Eu, sinceramente, duvido.”

“Que mais eu tenho pra dizer?”, retrucou Liam. “Eu só entrego a verdade, é responsabilidade sua aceitá-la.”

Uma mão molenga se levantou e abanou por trás do corpo na cama. “Tá certo, tá certo.” Ele suspirou e se ajeitou melhor. “Intuição. Eu acredito nisso.” Riu baixinho. “Intuição.”

No entanto, Liam não ouvia palavra alguma. Não havia tempo para decifrá-las quando o computador sussurrava uma nova estrofe de dígitos para seus olhos.